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Eu, o outro e o filho do outro

   Eu gosto muito de falar da condição humana porque remete à minha própria condição. Como humano não escapo das mazelas dos meus próprios atos, pensamentos, sentimentos e nem do meu contexto histórico: requisitos da minha sobrevivência. Não me isento à tentação do protecionismo materno/paterno, do desejo de manter a felicidade daqueles que me são caros, principalmente meus filhos.

   Minha condição humana é tão (ou mais) igual a de todo ser humano que, ao menor indício de perigo, me lanço à frente em declaração de guerra e pergunto, não exatamente desse jeito, mas com essa intenção: quem ousará impedir ou magoar a quem amo? Quem estará no caminho entre mim e minha cria (as crias também podem ser escolhidas como no caso dos filhos adotivos), ou melhor, quem a estará desencaminhando?

   Desde que aprendi a entender as palavras, ouço falar em más influências. Todos os acontecimentos que não seguiam a lógica determinada pela minha casa ou pela escola, certamente era por influência de alguém. Quem? O outro. Melhor dizendo, o filho do outro. Aprendi assim e me utilizo desse argumento; afinal, o meu filho sendo a criança doce que sempre foi jamais cometerá alguns erros, mesmo sabendo que sua condição humana poderá fazê-lo ter ideias, parafraseando Nietzsche, demasiado humanas. Esses pensamentos são comuns aos pais.

   Nas diferentes circunstâncias da vida, falar e ouvir sobre o filho são fatos extremamente interessantes, por carregarem vínculos, afetos, proteção e outros sentimentos inerentes à maternidade/paternidade, sem contar do prazer que proporcionam os relatos e experiências de uma história de amor.

   Trazendo a reflexão para o ambiente escolar, sem desconsiderar o nível de complexidade que existe na condição humana, por muitas vezes fico a me perguntar: Por que sempre o filho do outro surge nas orientações educativas entre família e escola?

   Nos inúmeros encontros que presencio, os diálogos passam por diversos assuntos, mas nas abordagens que retratam relacionamento, convívio e conflitos, geralmente aparece a inevitável pergunta: o que acontecerá com o outro?

   Isso me leva a pensar: será que só o filho do outro desacata, coloca apelido, agride, discrimina e até faz piadinhas? Quem será que o educa? 

   Bem, as coisas não são tão fáceis assim! Faz parte da condição humana o sentimento de proteção, mesmo nas mais complicadas decisões é difícil separar a razão da emoção, principalmente quando o assunto diz respeito aos filhos. O problema é que de condição humana em condição humana, a culpa sempre será do outro..., mas até quando?

   Muitas vezes esqueço que o outro a quem culpo pelos erros que cometo é também condição da minha identidade, da minha aprendizagem, do meu eu. Nós nos tornamos nós mesmos através do outro, diz Vygotsky. 

   Cabe lembrar que é na interação com o outro que me torno humano e isentar-me da responsabilidade dos meus atos é negar a minha própria condição que se estabelece na simbiose das relações pessoais.

   E nesse vai e vem de análises, a escola, espaço dos acontecimentos sociais, não pode desprezar que de um lado há a ideia de que a família define as regras que regem a educação do filho; do outro, há uma ética que não pode ser violada: eis o desafio de sustentar nossas práticas nas leis que regem a vida em sociedade.

   Não estou em busca de procurar culpados e nem de emitir juízo de valor, apenas desejo ampliar a visão restrita do mundo, pois com a ideia limitada de uma situação, só há uma causa para o problema – o outro.

   Ampliar a visão de mundo implica em descobertas, em rupturas, além de enxergar as infinitas possibilidades que existem em cada situação. É olhar para o outro lado sem as amarras e limitações impostas por minha condição humana.

   A respeito dessas indagações, há, na verdade, diferentes posições nas relações sociais, porém no processo educativo que compõe a formação de cada um, o outro, ou melhor, o filho do outro, implica no meu desenvolvimento, no meu conhecimento que é produzido histórica e coletivamente. Nessa perspectiva, eu sendo quem sou, diferenciadamente, me reconheço nesse outro:

 

Eu não sou você

você não é eu
Eu não sou você

Você não é eu

Mas sei muito de mim

Vivendo com você

E você, sabe muito de você vivendo comigo?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas encontrei comigo e me vi

enquanto olhava pra você

Na sua, minha, insegurança

Na sua, minha, desconfiança

Na sua, minha, competição

Na sua, minha, birra infantil

Na sua, minha, omissão

Na sua, minha, firmeza

Na sua, minha, impaciência

Na sua, minha, prepotência

Na sua, minha, fragilidade doce

Na sua, minha, mudez aterrorizada

E você se encontrou e se viu, enquanto

olhava para mim?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas foi vivendo minha solidão

que conversei com você

E você conversou comigo na sua solidão

ou fugiu dela, de mim e de você?

Eu não sou você

Você não é eu

Mas sou mais eu, quando consigo

lhe ver, porque você me reflete

No que eu ainda sou

No que já sou e

No que quero vir a ser...

Eu não sou você

Você não é eu

Mas somos um grupo, enquanto

somos capazes de, diferenciadamente,

eu ser eu, vivendo com você e

Você ser você, vivendo comigo.

Madalena Freire


   Não tenho muitas certezas na vida, apresento mais incertezas, porém trago comigo a convicção da importância do outro na minha caminhada. Uma coisa é certa: essas palavras não teriam sentido se não tivessem sido escritas a quatro mãos, eu e o outro pensando juntos.Como diz o poeta, é impossível ser feliz sozinho.

 

Profa. Ms. Adriana Maria Saura Vaz de Aguiar
Coordenadora Pedagógica

Profa. Ms. Ana Maria da Silva Fortes Aguiar
Diretora Pedagógica 

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