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Carma futebolístico

Carma futebolístico             

Renato Conterato

 

    “Em time que está ganhando não se mexe.” Faço um acréscimo à máxima: em time de futebol que está ganhando ou perdendo (exceto a ponto de duvidar se aquilo não seria basquete), no goleiro não se mexe. Ou, de forma ainda mais simbólica: goleiro que é goleiro não se mexe. Confuso? Já explico: 

    Segundo a divisão clássica de castas na Índia, que segue os preceitos da religião hindu, os brâmanes fazem parte do topo da pirâmide, representados por professores, sacerdotes e filósofos (então me respeitem, porque eu, apesar de ser mais branco do que uma bunda branca, posso ter um pezinho lá, onde se cultua o Brahma. Não a cerveja; o deus). Na base, representando os pés do Supremo, estão os sudras: camponeses, operários e artesãos. É um sistema hereditário e endógamo (só esclareço o significado do segundo porque até eu tive que buscar no dicionário: cada integrante só pode casar-se com pessoas do seu grupo). Aceita-se o que é, cumpra-se o que é.

    Mas o que isso tem a ver com os arqueiros? Muito – a não ser a parte da obrigação matrimonial. Cada um case com quem quiser. Ou nem case, porque do contrário você não terá mais saco pra treinar; pois sua mulher, em pouco tempo, vai fazer questão de explodir o seu –. Há uma regra sagrada mesmo dentro de um nível amador (amador no conceito, vamos deixar bem claro): autoescolha ou maioridade de votos dos companheiros, se o jogador atravessou tal marca divisória e indelével e virou de costas para as traves, cumpra seu carma. Não há volta, não há renúncia antes do apito ou do sinal para a prova de Matemática. 

    Você, bravo goleiro, não pode preferir o câmbio para assim utilizar apenas os pés; o aumento do placar a favor pertence ao destino de outros. Isto não te faz menor nem subserviente, apenas um guerreiro humilde. Aceite as mãos, como ao menino de Homero Homem foram incumbidas as asas. 

    Você, valente guarda-metas, nasceu para a defesa final e, infelizmente às vezes, também à busca da bola no fundo das redes ou no matagal da ribanceira. Mas nunca perca o orgulho: devolva-a com espírito esportivo e olhar de psicopata, principalmente ao fulminar as bestas da sua zaga que não sabem fazer uma simples barreira. 

    Ontem, veio até mim um aluno de uma das inúmeras salas que leciono. É cansativo, porém amo o que faço. Mas também gosto bastante do meu carro, de viagens, do cinema com pipoca... E estes quase nunca me saem de graça. Enfim. Informou-me o garoto, com um leve traço de inconformismo, que seu time havia perdido de onze a zero no campeonato interclasse. 

    — Quantos da sua equipe, durante a partida, foram para o gol? — perguntei de supetão, como no melhor modo de informar uma notícia ruim.

    — Hãããããã... 

    — Todos, não foi? — repliquei profeticamente.

    — É. Todos — devolveu, como se eu tivesse revelado o final da piada que ele se preparara tanto para contar.

    — Posso te dizer uma coisa? Seja você o goleiro — falei, fitando seus olhos. — Aguente.  Faça isso pelo seu time. Faça isso pela alma sacra do futebol.

    — Não sou religioso. E este é um Estado laico; não pode me obrigar a seguir qualquer doutrina — respondeu professoral, inteligente, irônico... E extremamente arrogante.

   Este é o problema de uma sociedade liberal. Contudo, se no meio de um sistema econômico tupiniquim seria classificado como sudra, dentro dos muros educativos eu sou brâmane, sim senhor:

    — Para amanhã, valendo metade da sua média, quero um trabalho crítico, de dez páginas, sobre complementos verbais — disse, mostrando a ele qual era o seu devido lugar.