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A Escola de Educação Infantil não é “escolinha”

Escrito por:
 

Ana Maria da Silva Fortes Aguiar
Diretora Pedagógica/ Colégio Antares

Valéria Braidotti
Coord. Pedagógica da Ed. Infantil/Colégio Antares

Mestres em Educação

 

A Escola de Educação Infantil não é “escolinha”

   A palavra escola no dicionário significa estabelecimento de ensino, para alguns estudiosos da Educação, inclusive para Paulo Freire escola é sobretudo gente. Nessa perspectiva, chamá-la de escolinha é abandonar o seu caráter eminentemente pedagógico e formador e resumi-la a um espaço apenas de brincadeiras, sem intencionalidade.

   Há de se considerar que essa postura não é por acaso, pois a sociedade demorou a compreender que a infância é um período importante para a vida das crianças.

   A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional reconhece a Educação Infantil como Parte da Educação Básica a partir de 1996. Nesse período algumas mudanças ocorreram, porém muito ainda há que se fazer para consolidar as finalidades educacionais que contemplam esse período de escolaridade que contribui significativamente para a formação da identidade da criança.

   Nesse sentido, a Educação Infantil vai muito além de se constituir num espaço pedagógico de recreações, de comemorações, de “tia”, de improvisos, ou seja, não é um parque de diversões, é um ambiente que exige profissionais altamente qualificados, com propostas pedagógicas fundamentadas em teorias educacionais que sustentam as práticas diárias dos envolvidos na complexa tarefa de educar.

   Nessa fase importante para a formação das crianças o aprender a ser, a conviver, a conhecer, a fazer configuram o pano de fundo de todas as ações planejadas para o desenvolvimento do trabalho. O caráter pedagógico de todo processo educativo não deve desprezar os diferentes momentos lúdicos da infância, pois é nessa dinâmica do aprender que acontecem as grandes transformações e mudanças no desenvolvimento humano.

   Para chegar até aqui, diferentes momentos históricos  contribuíram para romper com o caráter assistencialista na Educação Infantil. Primeiramente, a Constituição de 1988, que determinou esse nível de ensino como dever do Estado brasileiro, com isso os profissionais da educação infantil ganharam legitimidade no exercício de sua profissão como docentes, sem contar do direito da criança que foi conclamado com sua aprovação.

   No ano de 1990, mais uma conquista, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que ao ser aprovado reafirmou os direitos constitucionais relacionados à Educação Infantil. Nessa seqüência de fatos, tivemos a publicação pelo MEC, em 1994, de documento que definiu a Política Nacional de Educação Infantil, estabelecendo metas de expansão de vagas, melhoria da qualidade no atendimento às crianças, necessidade de qualificação dos profissionais.

   Em 1996, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) 9394/96, a Educação Infantil  passa a constituir a primeira etapa da Educação Básica, integrada aos ensinos Fundamental e Médio. Se o direito na primeira infância já estava assegurado na Constituição e no Estatuto da criança e do adolescente, com o advento da LDB, temos a tradução desse direito em diretrizes e normas em âmbito nacional. A inclusão da educação infantil na educação Básica é o reconhecimento de que a educação começa nos primeiros anos de vida.

   Para orientar e subsidiar as práticas pedagógicas e a elaboração de currículos da Educação Infantil, o MEC editou, em 1998, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Um ano depois, em 1999, o Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Esses documentos são as principais referências para elaboração e avaliação das propostas pedagógicas das instituições de Educação Infantil do país.

   Oportuno destacar que os referidos documentos não garantem por si só a transformação da instituição escola num espaço pedagógico que contribua significativamente para o itinerário de vida da criança, nos diferentes aspectos da formação humana. É preciso compreender que os primeiros anos de vida da criança são determinantes para a sua aprendizagem e seu desenvolvimento.

   A função da escola de Educação Infantil é promover a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças. Ela tem, portanto, uma função pedagógica que não pode se limitar ao brincar pelo brincar. Não pode ser restringida a uma espécie de depósito em que as crianças fazem atividades inadequadamente chamadas de joguinhos, desenhozinhos, pinturinhas, e ouvem historinhas. Aqui esbarramos novamente nos “inhos” e “inhas” que contaminam as falas sobre a Educação Infantil.

   Quando nos referimos ao fazer pedagógico da Educação Infantil reduzindo-o a tarefinhas, historinhas, salinhas, entre outros,  assumimos – ainda que sem perceber – duas posturas fundamentais na construção histórica, cultural e social humana. A primeira refere-se a uma concepção de aprendizagem e de desenvolvimento que entende a criança como um alguém que ainda não é. Nesta perspectiva, a criança não é capaz de aprender o mundo e no mundo como ele é, mas precisa que tudo seja infantilizado, reduzido à superficialidade, para que a criança inacabada possa ser inserida nele. A segunda está ligada ao marco ideológico que dissemina e mantém a subvalorização da escolarização da criança e, consequentemente, dos profissionais que trabalham na Educação Infantil.

   Na Educação Infantil concebida pelo Colégio Antares as crianças já são gente: nascem em uma sociedade, com direitos e deveres já institucionalizados; fazem parte da comunidade dos homens. Devem ser respeitadas em seu desenvolvimento físico, motor, cognitivo, afetivo, social.

   A natureza do conhecimento humano é inventiva, construtiva. Nela as informações não são pré-fixadas, mas funcionam como âncoras que geram transformações. Assim, o saber é construído nas transformações geradas pela capacidade inventiva das gentes - qualquer que seja a sua idade. Na Educação Infantil há intencionalidade educativa de trazer para o convívio íntimo das crianças pequenas, elementos essenciais da Língua Portuguesa, da Matemática, das Ciências e das Artes para a vida contemporânea em sociedade, a partir dos quais as crianças poderão estruturar idéias transformadoras sobre o mundo em que vivem, uma vez que a criação não é fruto de geração espontânea, mas depende de informações e intervenções pedagógicas adequadas.

   Na Educação Infantil do Colégio Antares, a intervenção pedagógica adequada exige conhecimento e postura teórica claramente definida. Em outras palavras, o nosso professor é um profissional que deve, necessariamente, ser um estudioso dos processos de aprendizagem e desenvolvimento infantil, capaz de realizar com competência a mediação entre os objetos do conhecimento e a criança.  O aprofundamento do saber fortalece as possibilidades de ação. Esta visão está radicalmente colocada na contramão dos estereótipos assistencialista e recreacionista das chamadas escolinhas. Entendida desta forma, a elaboração de propostas de ensino para a Educação Infantil requer investigação, estudo, reflexão. Definitivamente, isto não cabe em escolinha.

   No lugar, por exemplo, das “tarefinhas” de pintura, nossas crianças interagem com a Arte a partir de uma sequência didática construída sobre três pilares: a apreciação de obras de arte, a história da arte e o fazer artístico. No lugar das “letrinhas” soltas e sem sentidos e dos “livrinhos” - publicações com pouco texto e linguagem simplificada-, as atividades de leitura são voltadas para a formação do leitor como sujeito que recorre à escrita para informar-se e resolver questões cotidianas, e também como fonte de entretenimento e fruição estética. As crianças, desde bem pequenas, precisam brincar com as palavras num poema; acompanhar, interessadas e curiosas a leitura de um livro em capítulos, antecipando os acontecimentos, imaginando o final da história; divertir-se com trava-línguas e adivinhas; seguir os modos de fazer de uma receita; conhecer e discutir os acontecimentos apresentados pelos jornais, entre outras ações de leitura e escrita.

   Na Educação Infantil do Colégio Antares as crianças são consideradas, desde o início, sujeitos da aprendizagem, pensadores, leitores, escritores e questionadores do funcionamento dos instrumentos da cultura, do mundo e da vida.

   Sustentadas pelas palavras de Formozinho (2002:179) reafirmamos: a escola de Educação Infantil do Colégio Antares não é escolinha porque “em Educação Infantil qualquer atividade que não seja de alta qualidade representa uma oportunidade perdida de oferecer às crianças um bom começo para o resto de suas vidas.”
Vale lembrar que para nós, do Colégio Antares, os primeiros anos de vida de uma criança são anos verdadeiramente de educação. Os pesquisadores que estudam o desenvolvimento infantil afirmam que a construção da inteligência e a aquisição da aprendizagem, bem como a aquisição de habilidades, de valores e das atitudes, são desenvolvidas nesta fase e servem para toda a vida. Por isso, eleger a Educação Infantil como um período fundamental do processo educativo é reconhecer que os primeiros passos na Educação são decisivos para o desenvolvimento da criança.

   Diante disso, dizer que a Educação Infantil é um direito da criança é ir além das determinações legais, pois as políticas de atendimento, o processo de qualidade, a definição dos pressupostos pedagógicos, o projeto educacional, o compromisso dos educadores são alguns dos referenciais que devem sustentar esse direito.